sábado, 29 de novembro de 2014

ALGUNS ARGUMENTOS CONTRA O PADRE JONAS ABIB


DE: JULIANO
PARA: ASSOCIAÇÃO CULTURAL MONTFORT

PERGUNTA

A chamada RCC é um movimento pentecostal que teve origem entre os protestantes. É lógico, então, que a RCC - como a senhora diz -- não respeite, e, até pratique abusos contra a Missa. Ignorava eu que houvesse abusos desse porte. Mas acredito em sua palavra, porque quem diz que já tem o Espírito Santo na alma, porque razão daria importância à Missa, à Igreja e ao Clero?

Olha, sinceramente eu não sei de onde você tira essas coisas...! A RCC foi o movimento que mais deu valor e fez renascer na alma dos católicos o respeito pela Santa Missa e a sua importância. A RCC também ama profundamente a Igreja, o Clero e a Hierarquia. Os movimentos heréticos sempre afirmam que a Igreja, em um certo momento de sua História, errou e abandonou a doutrina de Cristo, e que, por isso, é necessário retornar à Igreja primitiva. Esse erro supõe que o Espírito Santo abandonou a Igreja, em certo momento, negando portanto que Cristo cumpriu sua promessa de estar com a Igreja todos os dias, até o fim dos tempos.

Não sei até que ponto se afirma, na RCC, que é preciso retornar ao que a Igreja era, a princípio, mas de qualquer forma essa é uma formulação errada.

Sei porém que o fundador da Canção Nova, Padre Jonas Abib, afirma em um de seus livros uma tese inaceitável sobre essa questão: "Em 1975, no Congresso Internacional da Renovação Carismática Católica, em Roma, surgiu uma palavra de profecia. Essa palavra orientou os rumos da Renovação naquele momento, e agora, mais do que nunca, se mostra atual.

"Veja bem a data: estávamos em 1975. Fazia apenas oito anos que Deus começara a derramar o seu Espírito de maneira nova sobre a Igreja Católica" (Padre Jonas Abib, A Bíblia no meu dia-a-dia, p. 14. O negrito é meu).

Como a senhora vê, Irmã, segundo o Padre Abib, Deus só começou a derramar o Espírito Santo e seus dons sobre a Igreja -- de maneira nova -- na década de 1960, isto é, após o Vaticano II.

E até essa data, como Deus deixara a Igreja?


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O Porquê das Heresias

 

O Porquê das Heresias
Do livro "As Grandes Heresias
de Monsenhor Cristiani

Na oração sublime que os exegetas chamam "oração sacerdotal", Cristo pede ao Pai, com certa angústia, que os seus discípulos guardem para sempre a unidade: "Pai Santo, guarda em teu nome aqueles que me confiou, de modo que sejam um, como Nós... Não rogo somente por eles, mas também para aqueles que, movidos por sua pregação, creiam em mim, para que todos sejam um, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que também eles também sejam um em Nós, a fim de que o mundo saiba que Tu me enviaste "(Jo XVII, 11, 20-24).

Cristo sabia o preço e a dificuldade da unidade, o que seria o principal sinal da verdadeira Igreja. Porém haveria divisões, rupturas da unidade, divergências de opinião, em uma palavra, heresias. Este é, de fato, o significado desta palavra de origem grega, que adotado pelo latim, foi quase desconhecido pela linguagem clássica, e, em vez disso, usado com freqüência pelos Padres da Igreja. De onde provém as heresias? Da diversidade de idéias, de características, temperamentos, e por fim, o próprio fato da liberdade humana. A Fé na Palavra de Deus é livre.Deus não força ninguém. Porém é inevitável que a fé exija por parte do homem um esforço de submissão e obediência. Esta obediência é uma opção. O papel das heresias é destacar essa opção. Por isso São Paulo disse: “É necessário que entre vós haja heresias para que possam manifestar-se os que são realmente virtuosos” (I Coríntios, XI, 19).

E Tertuliano, 150 anos mais tarde, escrevia: “A condição de nosso tempo nos obriga a dar esta advertência, que não nos devemos admirar por causa das heresias, nem de sua existência, que foi predita, nem de que arruínem a fé em muitos, pois sua razão de ser é provar a fé, tentando-a”.

Se tentarmos verificar esta lei da prova necessária à fé, constataremos que ela faz parte das leis essenciais que regem os espíritos. Os anjos haviam sido submetidos a uma prova. Não lhe conhecemos o modo, mas constatamos o fato, na existência dos demônios (1). Eram anjos como os outros. Sucumbiram à prova. Os homens, por sua vez, devem ser “tentados”, isto é “provados”. É fácil ver o que acontece no aparecimento das heresias. No fato da heresia podem distinguir-se três aspectos diferentes: o aspecto filosófico, o aspecto paradoxal e o aspecto positivo.

Sob o ponto de vista filosófico, a heresia nasce do conflito ou do contraste entre a verdade revelada e os diversos sistemas filosóficos já estabelecidos nos espíritos sobre os quais recai essa revelação. A fé nem sempre encontra espíritos bem preparados para a receber. Cristo escolheu apóstolos sem instrução. Mas esses mesmos apóstolos tinham suas idéias, suas tradições, suas concepções sobre o reino messiânico. Os escribas e fariseus se julgavam bem mais esclarecidos que os humildes pescadores do lago da Galiléia. Em todos eles a fé encontrava obstáculos, em todos haviam preconceitos a vencer. E, passando dos Judeus para os pagãos, os conflitos de aspecto filosófico entre a fé e os sistemas em voga iriam ser ainda mais agudos. E até o fim dos tempos, seria a mesma coisa. Nem sempre é possível a concordância entre as filosofias humanas e a fé revelada. Os pensadores cristãos terão que executar uma tarefa imensa de adaptação entre a razão e a fé.

Do aspecto filosófico das heresias passamos, inevitavelmente, ao aspecto paradoxal. Entendemos com isso que a verdade revelada, pelo próprio fato de sua origem divina apresenta necessariamente sombras que a razão não consegue vencer. É o que exprimimos quando dizemos que a fé encerra mistérios. Refletindo sobre isso, compreendemos perfeitamente que uma religião sem mistérios não pode ser uma religião divina. A razão deve confessar sua impotência ante a fé vinda de Deus. E é isso que dá à heresia um aspectoparadoxal. Salienta a realidade antinômica e paradoxal do mistério da fé.

Enfim, a heresia se explica também pelo aspecto positivo. Com efeito, nem tudo está errado na heresia. Sempre contém uma intuição verdadeira, mas falseada pela interferência de um sistema filosófico que está em contradição com a fé, ou pela recusa implícita ou explícita do mistério da fé. Em toda heresia há, portanto, rebelião contra a verdade revelada e é nisso que se manifesta o sentido profundamente anticristão de qualquer heresia.

Êsse modo de ver a heresia é tradicional na Igreja. Mas sempre se tem insistido também no bem que pode surgir do grande mal que é a heresia. Tôdas as heresias foram ocasião de progresso na compreensão da fé, de confirmação da unidade no seio da Igreja.


(1) A respeito de Satã e os demônios, veja-se o tomo 21 da presente coleção.

Fonte: Retirado do livro “Breve História das Heresias” – Monsenhor Cristiani, Prelado da Santa Sé, Tradução de José Aleixo Dellagnelo, Sei e Creio, Enciclopédia do Católico no Século XX, Décima Terceira Parte, Irmãos Separados, Livraria Editora Flamboyant, São Paulo, 1962.
Foto: Autor desconhecido. Do álbum "Aedificabo Ecclesiam Meam", generosamente cedidas por Pedro Ravazzano.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

A questão do calendário litúrgico


Resposta às exigências abusivas de alguns bispos
Publicamos extratos de uma entrevista de um reconhecido liturgista que responde às exigências de certos bispos que querem impor para os fiéis tradicionais o calendário novo e as leituras da missa nova, como condição para legalizar a celebração da missa tradicional. Se bem às vezes a formulação das respostas não nos pode satisfazer completamente, ele aporta elementos interessantes para o debate.
O que são o “calendário tradicional” e o “calendário novo”?
O calendário chamado “tradicional” é aquele que está associado com o missal chamado “de Pio V” ou “tridentino” cuja última edição típica data de 1962, razão pela qual alguns chamam-no de “liturgia de 1962″.
O novo calendário é aquele que foi promulgado no ano 1970 pelo Papa Paulo VI, junto com o missal que instaurava a missa nova.
Por quê pode-se ficar apegado ao calendário tradicional?
Por múltiplas razões, das quais não retenho aqui mais do que as duas principais:
A primeira é porque este calendário mesmo está em perfeita simbiose com o livro litúrgico tradicional.
A segunda é uma evidencia que foi constatada por muitos fiéis desde o ano 1970: o calendário tradicional é muito mais rico do que o novo calendário. Notemos por exemplo o muito mais reduzido número de festas de santos (aproximadamente 177 para o missal de 1970, contra aproximadamente 277 para o de 1962), que foi muito criticado com ocasião da publicação do novo calendário. Certamente várias festas que não se acham mais no calendário romano geral de 1970 não foram, portanto, suprimidas. Elas, na maior parte, foram transferidas nos calendários nacionais, diocesanos, ou naqueles das ordens religiosas, mas não fica menos certo por isso que nós conhecemos com essa reforma um grande empobrecimento do calendário em geral. Sem entrar em detalhes demasiado técnicos é preciso saber que o grande debate em torno ao calendário tinha sido posto em obra… e resolvido pelo Papa São Pio X no começo do século XX. O temor na época era de ver aos poucos o santoral (a comemoração dos santos) prevalecer sobre o temporal (sobre o ritmo do ano litúrgico). Ora, ao limpar desde aquela época o calendário e ao dar a prioridade litúrgica aos domingos, o temor principal dos liturgistas dissipou-se e já não era necessário modificar mais uma vez o calendário. […]
Mas fala-se freqüentemente do novo leccionário como sendo mais rico que o antigo?
É verdade, o novo leccionário é fornecido com as três leituras e o seu ciclo trienal… Mas não estamos mais nos tempos antigos, nos quais os fiéis não tinham acesso a tais tesouros. […] Por outra parte, o que vale esta profusão de textos quando os estudos oficiais nos indicam que a maior parte dos “praticantes” não assistem à Missa mais que uma vez por mês? Sem falar que os textos do antigo Testamento são muitas vezes complexos e precisam de uma explicação detalhada para ser bem recebidos. Outro ponto que temos que destacar é que respeito ao antigo leccionário, este guarda um estreito laço com aqueles que o têm utilizado desde vários séculos, pensemos nos sermões de São Bernardo, nos de Santo Antônio de Pádua, que são os textos do leccionário tradicional comentados. Então como podemos nos cortar de uma semelhante riqueza?
Acrescentaria ainda que temos de estimar muito as virtudes pedagógicas da repetição. É certo que o antigo leccionário repete os mesmos textos todos os anos, mas se todos os fiéis assimilassem perfeitamente esse núcleo de textos da palavra do Senhor, já seria uma coisa extraordinária. Como o escreveu muitas vezes o Papa Bento XVI nos seus livros antes da sua eleição, foram alguns peritos que fizeram a reforma litúrgica… mas será que eles tinham verdadeiramente um sentido pastoral afinado? A questão merece ao menos ser examinada. […]
Que pensais da idéia de alguns que afirmam que seria preciso aplicar à celebração da Missa de São Pio V o calendário litúrgico do missal de Paulo VI?
Penso que é preciso perguntar-se sinceramente e como cristãos qual é a verdadeira intenção que se esconde atrás dessa proposição. Acho, de fato, que ela é ao menos bastante provocadora e geradora de discórdias. Em primeiro lugar, discórdia àqueles a quem o Santo Padre propõe a paz, já que muitos deles não o aceitarão, o qual permitirá os oponentes afirmarem que de todas as formas os tradicionalistas nunca estão contentes. Discórdia também da parte dos fiéis da tendência da Fraternidade São Pio X que verão nisso uma má fé dos bispos e um novo obstáculo à indispensável reconciliação.[…] Acrescentemos a isto que tal proposição não tem estado jamais na intenção do legislador. A carta Quattuor ab hinc annos, do 3 de outubro de 1984, sobre a qual se apóia depois o Motu Próprio Ecclesia Dei de 1988, diz muito precisamente: “que não haja nenhuma mistura entre os ritos e os textos de um e outro missal.” Parece-me, pois, impensável propor, ou pior, impor, às celebrações em rito tridentino seguir o novo calendário.
Mas se diz que o Papa Bento XVI, na época que era ainda o Cardeal Ratzinger, falou nesse sentido com ocasião do encontro litúrgico de Fontgombault em julho de 2001?
Permita-me vos dizer que afirmar isso seria uma falsificação vergonhosa das palavras do Santo Padre! É só ler de novo as atas deste colóquio para constatar, primeiro, que o antigo missal é um “ponto de referência”, “um bem da Igreja”, um “tesouro da Igreja” (págs. 178 das atas) e insiste claramente sobre o fato que, falando em reforma, se refere naturalmente em retocar o missal reformado, mas não o missal precedente (de São Pio V, pág. 179), sem excluir que no futuro este missal possa naturalmente evoluir. No tocante ao calendário, ele diz (pág.s 182-183) “deve-se ser muito prudentes com eventuais mudanças”, “por minha parte não faria nada nesse sentido, está claro. Mas no futuro, dever-se-ia pensar, me parece, em enriquecer o missal de 1962 e introduzir novos santos”, “abrir o calendário do antigo missal aos novos santos, fazendo uma escolha bem meditada, isto parece-me uma coisa importante, que não destruiria nada da estrutura da liturgia”. Eis aqui o pensamento do Santo Padre e não outra coisa. Ele não falou de nenhuma maneira na utilização do novo calendário para o antigo missal.
O fato de ter vários calendários não seria um problema para a Unidade?
Devemos nos guardar de juízos demasiados maniqueus. […] Devemos olhar a realidade de frente: as dioceses, os países, as ordens religiosas, têm todos um calendário diferente. Alguns têm as suas festas próprias, outros dão às suas festas um grau diferente de solenidade. Esta idéia de um calendário uniforme e universalmente imposto não faz nenhum sentido, pois não corresponde à realidade da vida da Igreja que é rica de tradições muito antigas que não deveriam ser tocadas senão com o maior respeito. Deve-se pedir aos franciscanos ou aos dominicanos de abandonar as suas festas? Deve-se acusá-los de quebrar a unidade? Parece-me pouco sério. Aliás, é uma idéia muito recente e bastante revolucionária considerar que dá para modificar segundo uns esquemas intelectuais esses tesouros de tradições diversas que a Igreja nos transmite e que deveríamos conservar como a pupila dos olhos. Existe aqui um intelectualismo desvirtuado que não corresponde ao que o Santo Padre atual reconhece como o espírito da liturgia, e que poderia se transformar em um tipo de ideologia contrário ao pensamento da Igreja.
La Paix Liturgique

Fonte:
http://www.fsspx.com.br/

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A MISSA TRADICIONAL


O culto devido a Deus

O primeiro dever do homem é adorar a Deus, prestar-lhe o culto de adoração, de louvor, de ação de graças que Lhe é devido. Dar culto de adoração a Deus significa reconhecer a Deus como nosso Criador e Senhor. Ele nos criou, d´Ele dependemos. Damos-Lhe também graças por todos os benefícios que recebemos d´Ele. Pedimos-Lhe perdão por nossas faltas e pecados e, finalmente, pedimos-Lhe também o que necessitamos para a nossa vida e salvação eterna. Em concreto, estes são os quatro fins da Santa Missa.

Este culto não é somente pessoal, individual, mas é sobretudo um culto público, ordenado e prescrito pela Igreja, sob a moção do Espírito Santo.
Deste culto oficial se ocupa a Liturgia. A palavra Liturgia vem do gregoleiton ergon que significa obra ou ministério público. “A Liturgia é, portanto, o culto público e oficial que a Igreja presta a Deus e ao mesmo tempo santifica os fiéis”[1].

O padre Gregório Martínez de Antoñana escreve: “A Liturgia, em sentido geral e objetivo, é o mesmo que o culto público da Igreja, e pode definir-se: o conjunto de ações, de fórmulas e de coisas com que, segundo as disposições da Igreja Católica, se dá culto público a Deus”[2].

Como a Igreja é o Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, que por meio dela continua a sua função sacerdotal através dos séculos, num sentido mais teológico e completo pode definir-se a Liturgia com o Papa Pio XII: “é todo o culto público do Corpo Místico de Jesus Cristo, ou seja, da Cabeça e dos seus membros”.

E mais brevemente: “A Liturgia é o exercício do sacerdócio de Jesus Cristo pela Igreja”[3]. A Liturgia é a teologia feita oração.
Pertencem a Liturgia: o Santo Sacrifício da Missa, que é a sua alma e o seu centro; o ofício divino, que gira e se desenrola em torno da Missa. O ofício divino chama-se também Breviário, livro que contém as orações oficiais da Igreja que cada sub-diácono, diácono, sacerdote, bispo e Papa fazem oito vezes por dia para a Igreja e todos os seus Filhos.

Pertencem também à Liturgia os Sacramentos, Sacramentais (bênçãos); e todos os ritos e cerimônias, símbolos e vestidura, vasos e lugares sagrados bem como os cantos e melodias que a Igreja usa para concretizar este culto público e solene.

A Liturgia constitui a vida mesma da Igreja, do Corpo Místico de Cristo. Por isso, tem um poder para a santificação das almas verdadeiramente admirável. Por meio da Liturgia católica, ascendem ao céu a adoração, a ação de graças, os pedidos de perdão e de ajuda dos fiéis e, por meio desta mesma Liturgia, descem sobre os homens a misericórdia, ajuda, proteção de Deus sobre os fiéis católicos e sua Santa Madre, a Igreja.

A liturgia constitui o meio mais poderoso que tem a Igreja para converter as almas, santificá-las e protegê-las. A Liturgia é o meio mais poderoso para comunicar a fé católica no Sacrifício de Cristo renovado sobre o altar com a mesma eficácia. Por esta razão, desde os primeiros séculos se diz: Lex orandi, Lex credendi. A lei da oração, a maneira de rezar, nos diz a lei da crença, quer dizer, a maneira de rezar, de prestar culto a Deus, demonstra o que cremos.

Durante séculos, a fé católica foi comunicada por meio da Liturgia, na qual estão concentradas todas as verdades do Credo católico. Na história da Igreja existem os construtores e os destruidores da Liturgia. Alterar, modificar a Liturgia da Missa, por exemplo, pode ter conseqüências incalculáveis sobre a fé do povo e dos sacerdotes: essa alteração pode destruir sua fé, corromper sua moral e precipitá-los na decadência e apostasia. Os povos protestantes nos dão o exemplo. Tendo mudado a sua Liturgia, mudaram a sua fé e fizeram-se hereges e atualmente ateus em muitos lugares. No século XVI, na Inglaterra, o sacerdote herege Thomas Cranmer mudou a Liturgia da Missa do latim para o inglês; uns anos depois, a Inglaterra perdeu a fé católica e impediu a cristianização do mundo opondo-se às nações católicas missionárias como Espanha e Portugal.

[1] J. G. Treviño, Lecciones practicadas de Liturgia, México D.F. sin fecha, pág. 5.
[2] Gregorio Martínez de Antoñana, Manual de Sagrada Liturgia, Madrid, ed Coculsa, 1957 pág. 1 no 1.
[3] Papa Pío XII, Encíclica Mediator Dei.

Fonte:http://tradicaocatolicaes.wordpress.com/

domingo, 23 de novembro de 2014

Origem, desenvolvimento e definição da Missa Católica Tradicional



A Missa Católica chamada Missa Tradicional, Missa Tridentina ou Missa de São Pio V está composta por duas partes, a saber, a parte essencial, que são os elementos instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo e as palavras e cerimônias que estão à sua volta.

Os elementos essenciais da Santa Missa, que foram instituídos por Cristo mesmo na Última Ceia, são:

1) A matéria: pão e vinho;

2) A forma, ou seja, as palavras: “Este é o Meu Corpo” e “Este é o Cálice do Meu Sangue…”;

3) Um sacerdote validamente ordenado que,

4) tenha a intenção de fazer o que a Igreja faz na confecção deste Sacramento.

As palavras e cerimônias que envolvem estes elementos essenciais foram-se desenvolvendo e adquirindo forma através dos anos até alcançar a forma que chegou aos nossos dias. A seguir, faremos uma muito breve resenha do desenrolar destas palavras e cerimônias.

Durante os séculos I e II, essas palavras de Cristo estiveram rodeadas por uma liturgia inicial que, pouco a pouco, foi desenrolando-se e germinando no Oriente e Ocidente do império romano. Todas as partes da Missa apareceram já no século III e foi no século IV que o rito romano ficou plenamente conformado e, mais concretamente, durante o pontificado do Papa São Dâmaso (366-384).

Diremos que até São Gregório Magno (590-604) não existia um Missal Oficial com o Próprio das missas do ano. O líber Sacramentorum foi redigido, por encargo de São Gregório no princípio de seu pontificado, para serviço e uso das Stationes que tinham lugar em Roma, quer dizer, para a liturgia pontifical. Pode-se dizer que este Missal contém agora quase a mesma Missa Tradicional tal como chegou a nossos dias, posto que as modificações ou adições que São Pio V (1566-1572) efetuou ao codificar o seu Missal Romano foram muito pequenas.

Portanto, podemos assegurar que a Missa que atualmente se diz de São Pio V, ou Missa Tradicional, não é outra senão o rito romano tal qual o encontramos, em suas partes mais importantes, no século IV, tendo sido posteriormente imprimido, pela primeira vez, num Missal por São Gregório Magno.

Cânon da Missa, aparte alguns retoques efetuados por São Gregório Magno, alcança com São Gelásio I (492-496), a forma que tem conservado até hoje. Os Romanos Pontífices não deixaram de insistir desde o século V sobre a importância de adotar o Cânon Missae Romanae, dado que este remonta a nada menos do que ao mesmo Apóstolo Pedro.

Mas no que respeita às outras partes do Ordo, como pelo Próprio das missas, respeitaram o uso das igrejas locais. Assim, São Pio V codifica a Missa Romana na sua forma mais pura segundo a indicação do Concílio de Trento (1545-1563).

“O sacrifício cumpra-se segundo o mesmo rito para todos e por todos, de forma que a Igreja de Deus não tenha mais do que uma mesma língua… que os missais sejam restaurados segundo o uso e costumes antigos da Missa Romana”. O Missal assim restaurado foi promulgado no dia 19 de Julho de 1570 pela Bula Quo Primum Tempore, dando a conhecer duma forma particularmente solene. A bula precisa duma forma muito clara que não se trata de um novo rito, mas de um missal revisto e corrigido”.

No Catecismo Maior de São Pio X, encontramos a seguinte definição do que é a Santa Missa: “A Santa Missa é o Sacrifício do Corpo e Sangue de Jesus Cristo, que se oferece sobre os nossos altares sob as espécies do pão e do vinho em memória do sacrifício da Cruz” (no. 655), “é substancialmente o mesmo que o da Cruz…” (no. 656), “na Cruz, Jesus Cristo se ofereceu derramando o seu sangue e merecendo por nós, enquanto que nos nossos altares Ele mesmo se sacrifica sem derramar sangue e nos aplica os frutos da sua paixão e morte (no. 657).

O Concílio de Trento declara que a Missa é um Sacrifício verdadeiramente oferecido pelo sacerdote oficiante, pela virtude do seu sacerdócio, in persona Christi, quer dizer, no lugar de Cristo, que é simultaneamente o Sacerdote e a Vítima, sendo a Missa o mesmo Sacrifício da Cruz.

Na Cruz, o Sacerdote que oferece o Sacrifício é Nosso Senhor Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote; a Vítima oferecida é também Nosso Senhor e o Padre Eterno é a quem este Sacrifício é oferecido. No santo Sacrifício da Missa, o sacerdote que oferece o Sacrifício é Nosso Senhor mesmo, agora que o celebrante atua in persona Christi. A Vítima do Sacrifício é Nosso Senhor Jesus Cristo, real e substancialmente presenteem Seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade, sob as aparências do pão e do vinho. E, finalmente, O que recebe o Sacrifício é Deus Pai.

Desta maneira, vemos que os elementos essenciais do sacrifício (Sacerdote, Vítima e Recipiente), são exatamente os mesmos na Cruz e na Missa.

A Missa, de fato, é o mesmo Sacrifício da Cruz, com a diferença de que não é cruento. Tal sacrifício tem quatro finalidades: 1) Sacrifício de adoração; 2) Sacrifício eucarístico (quer dizer, de ação de graças); 3) Sacrifício propiciatório (para dar-Lhe alguma satisfação por nossos pecados e oferecer-Lhe sufrágios para as almas do purgatório); 4) Sacrifício de petição destinado a apresentar uma súplica.

Concluímos que ao assistir à Santa Missa Tradicional com as disposições necessárias, nos fazemos participantes dos méritos que Nosso Senhor obteve para nós no Santo Sacrifício da Cruz.

[1] J. G. Treviño, Lecciones practicadas de Liturgia, México D.F. sin fecha, pág. 5.
[2] Gregorio Martínez de Antoñana, Manual de Sagrada Liturgia, Madrid, ed Coculsa, 1957 pág. 1 no 1.
[3] Papa Pío XII, Encíclica Mediator Dei.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Concílio de Constança

Jan Hus no Concílio de Constança
Concílio de Constança, realizado entre 1414 e 1418 em Constança, foi o 16º concílio ecuménico da Igreja Católica.1 O seu principal objectivo foi acabar com o cisma papal que tinha resultado do Papado de Avinhão, ou "a captividade babilónica da Igreja", como também é conhecido (um termo cunhado por Martinho Lutero).
Quando o concílio foi convocado, havia três papas, todos clamando legitimidade. Alguns anos antes, em um dos primeiros golpes que afectaram o movimento conciliador, os bispos do concílio de Pisa tinham deposto ambos os papas anteriores e elegido um terceiro papa, argumentando que, em tal situação, um concílio de bispos tem mais autoridade do que um Papa. Isto apenas contribuiu para agravar o cisma.
Com o apoio de Sigismundo, sacro Imperador romano, o concílio de Constança recomendou que todos os três papas abdicassem, e que um outro fosse escolhido.2
Em parte por causa da presença constante do imperador, outros monarcas exigiram que tivessem uma palavra a dizer na escolha do papa. Grande parte da discussão no conselho foi ocupada na tentativa de acalmar monarcas seculares, mais do que em efectuar uma reforma da igreja e da sua hierarquia.
Um segundo objectivo do concílio foi continuar as reformas iniciadas pelo concílio de Pisa (1409) que, ao pretender arbitrar as pretensões contraditórias, elegeu um terceiro papa: Alexandre V.3 Estas reformas foram largamente dirigidas contra John WycliffeJan Hus e seus seguidores.1 Jan Hus foi condenado pelo concílio à morte na fogueira e queimado vivo a 6 de julho de 1415.
O concílio também tentou iniciar reformas eclesiásticas. Foi mais tarde declarado que um concílio de bispos não tem maior influência do que o Papa.
Em 1415 o concílio depôs os papas rivais Bento XIII e João XXIIIGregório XII antes de ser deposto abdicou em 4 de junho.3Mais tarde, em 1417, fora eleito Otto de Colonna como Papa Martinho V (1417-1431),1 dando um fim ao Grande Cisma Papal do Ocidente.2

Referências

  1. ↑ Ir para:a b c Loyn, Henry R.. Dicionário da Idade Média. Álvaro Cabral (Trad.). Zahar, 1990. pp. 103. ISBN 8571101515
  2. ↑ Ir para:a b Keeler, Helen; Grimbly, Susan. 101 Coisas Que Todos Deveriam Saber Sobre O Catolicismo. Editora Pensamento. pp. 48. ISBN 8531514835
  3. ↑ Ir para:a b Libera, Alain de. Filosofia medieval (A). Edicoes Loyola. pp. 470. ISBN 851501680X

domingo, 16 de novembro de 2014

Paulo VI, Beato? – por Mgr. Marcel Lefèbvre


Em 20 de dezembro de 2012, Bento XVI autorizou a Congregação para as Causas dos Santos a promulgar um decreto reconhecendo as “virtudes heróicas” de Paulo VI, papa de 1963 a 1978. Agora basta um milagre obtido por intercessão de Paulo VI para proceder à sua beatificação. 

Aparentemente, o postulador de sua causa, Pe. Antonio Marrazzo, já escolheu um caso para apresentar à comissão médica: a cura de uma criança em gestação diagnosticada com uma grave má-formação. De acordo com Andrea Tornielli, do Vatican Insider de La Stampa, a beatificação poderia ocorrer em 2013.

       Paulo VI é o papa que encerrou o Concílio Vaticano II, aberto por seu predecessor João XXIII. Foi durante o pontificado de Paulo VI que o Novus Ordo Missae foi desenvolvido. Em 1976 ele escreveu sem hesitação a Dom Marcel Lefebvre: “O Concílio Vaticano II não tem menos autoritadade do que o Concílio de Nicéia, mas é até mais importante em alguns aspectos.”

       Dom Lefebvre, que foi suspenso a divinis durante o pontificado de Paulo VI, deu sua opinião sobre Paulo VI aos seminaristas de Ecône na série de palestras que fez sobre o Magistério e que forneceu material para o seu livro Do Liberalismo à Apostasia (Ed. Permanência, 1991). 

O capítulo 31, “Paulo VI – Papa Liberal”, oferece uma forte indicação do que o fundador da Fraternidade São Pio X teria dito sobre essa beatificação. 

DICI introduziu subtítulos na forma de perguntas ao texto de Dom Lefebvre, para melhor seguir a sua análise.

Como Paulo VI será julgado pela Igreja no futuro?

       É evidente que a Igreja, um dia, julgará este Concílio, julgará estes Papas. E em especial, como será julgado o Papa Paulo VI? Alguns afirmam que foi herege, cismático e apóstata; outros crêem poder demonstrar que Paulo VI não tinha em vista o bem da Igreja, e portanto não foi papa, é a tese dos “Sedes Vacans” (sedevacantistas). Não nego que estas opiniões tenham algum argumento a seu favor. Poderão dizer que em trinta anos se descobrirão coisas que estavam ocultas ou se verão melhor elementos que deveriam ter sido mais claros para os contemporâneos, como afirmações deste Papa absolutamente contrárias à tradição da Igreja etc. Pode ser, mas não creio necessário recorrer a estas explicações; penso inclusive que é um erro seguir certas hipóteses.

       Outros pensam, de modo simplista, que havia então dois papas: um, o verdadeiro, estava prisioneiro nos porões do Vaticano, enquanto o outro, o impostor, o sósia, ocupava o trono de São Pedro, para a infelicidade da Igreja. Livros foram escritos sobre “os dois papas”, baseados em “revelações” de uma pessoa possuída pelo demônio e em argumentos pseudocientíficos que afirmam, por exemplo, que a voz do sósia não é a do verdadeiro Paulo VI!
Qual é a sua própria explicação sobre o pontificado de Paulo VI?

        

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

ATO DE CONSAGRAÇÃO DAS FAMÍLIAS AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS.

 (Texto aprovado por São Pio X em 1908)

SAGRADO CORAÇÃO de Jesus, que manifestastes a Santa Margarida Maria o desejo de reinar sobre as famílias cristãs, nós vimos hoje proclamar vossa realeza absoluta sobre a nossa família. 

Queremos, de agora em diante, viver a vossa vida, queremos que floresçam, em nosso meio, as virtudes às quais prometestes, já neste mundo, a paz. 

Queremos banir para longe de nós o espírito mundano que amaldiçoastes. 
Vós reinareis em nossas inteligências pela simplicidade de nossa fé; em nossos corações pelo amor sem reservas de que estamos abrasados para convosco, e cuja chama entreteremos pela recepção freqüente de vossa divina Eucaristia. 

Dignai-Vos, Coração divino, presidir as nossas reuniões, abençoar as nossas empresas espirituais e temporais, afastar de nós as aflições, santificar as nossas alegrias, aliviar as nossas penas. 

Se, alguma vez, algum de nós tiver a infelicidade de Vos ofender, lembrai-Vos, ó Coração de Jesus, que sois bom e misericordioso para com o pecador arrependido. 
E quando soar a hora da separação, nós todos, os que partem e os que ficam, seremos submissos aos vossos eternos desígnios. Consolar-nos-emos com o pensamento de que há de vir um dia em que toda a família, reunida no Céu, poderá cantar para sempre a vossa glória e os vossos benefícios. 

Digne-se o Coração Imaculado de Maria, digne-se o glorioso Patriarca São José apresentar-Vos esta consagração e no-la lembrar todos os dias de nossa vida. Viva o Coração de Jesus, nosso Rei e nosso Pai
ATO DE CONSAGRAÇÃO INDIVIDUAL
AO SACRATÍSSIMO CORAÇÃO DE JESUS.
( De Santa Margarida Maria Alacoque )

Eu (o seu nome), Vos dou e consagro, oh Sagrado Coração de Jesus Cristo, a minha vida, as minhas ações, penas e sofrimentos, para não querer mais servir-me de nenhuma parte do meu ser, senão para Vos honrar, amar e glorificar. É esta a minha vontade irrevogável: ser todo Vosso e tudo fazer por Vosso amor, renunciando de todo o meu coração a tudo quanto Vos possa desagradar.

Tomo-Vos, pois, ó Sagrado Coração, por único bem do meu amor, protetor da minha vida, segurança da minha salvação, remédio da minha fragilidade e da minha inconstância, reparador de todas as imperfeições da minha vida e meu asilo seguro na hora da morte.

Sê, ó Coração de bondade, a minha justificação diante de Deus, Vosso Pai, para que desvie de mim a Sua justa cólera.

Ó Coração de amor, deposito toda a minha confiança em Vós, pois tudo temo de minha malícia e de minha fraqueza, mas tudo espero de Vossa bondade! Extingui em mim tudo o que possa desagradar-Vos ou que se oponha à Vossa vontade.

Seja o Vosso puro amor tão profundamente impresso em meu coração, que jamais possa eu esquecer-Vos nem separar-me de Vós. Suplico-Vos que o meu nome seja escrito no Vosso Coração, pois quero fazer consistir toda a minha felicidade e toda a minha glória em viver e morrer como Vosso escravo. Amém.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Alocução de Pio XII sobre as famílias numerosas


No dia 20 de janeiro de 1958, o Papa dirigiu a palavra a um grupo de dirigentes e membros da Federação Nacional (italiana) das Associações de Famílias Numerosas.

1. Entre as visitas mais agradáveis ao Nosso coração, destacamos a vossa, caros filhos e filhas, dirigentes e representantes das Associações de Famílias Numerosas de Roma e da Itália. Conheceis, com efeito, a viva so­licitude que dedicamos à família. Não perdemos ne­nhuma ocasião de assinalar-lhe a dignidade em seus múl­tiplos aspectos, de afirmar e defender-lhe os direitos, de inculcar-lhe os deveres, numa palavra, de fazer dela um ponto fundamental de nosso ensinamento pastoral.
2. Em razão dessa solicitude para com a família, consentimos com todo o prazer, quando as ocupações de Nosso cargo a isso não se opõem, em receber, mesmo que seja por breves momentos, os grupos de famílias que vêm até a Nossa residência e mesmo em deixar- Nos fotografar em sua companhia, para perpetuar, de algum modo, a lembrança da Nossa e sua alegria.
3. O Papa no meio de uma família! Não é este um lugar que bem lhe convém? Não é ele próprio, com um significado altamente espiritual, o Pai da família humana regenerada no Cristo e na Igreja? E não é por intermédio do Vigário de Cristo na terra que se realiza o admirável desígnio da Sabedoria criadora, que ordenou toda paternidade humana no sentido de prepa­rar a família eleita dos céus, onde o amor de Deus, Uno e Trino, a envolverá num só e eterno abraço, dando-se a Si mesmo como herança de beatitude?
4. Entretanto não representais apenas a família, mas sois e representais as famílias numerosas, isto é, as que são mais abençoadas por Deus, queridas e esti­madas pela Igreja como os tesouros mais preciosos. Destas recebe, com efeito, com mais evidência, um trí­plice testemunho, pois ao mesmo tempo em que confirmam aos olhos do mundo a verdade de sua doutrina e a retidão de sua prática, tornam-se, em virtude do exem­plo, de grande auxílio para todas as outras famílias e para a própria sociedade civil. Com efeito, quando são encontradas com freqüência, as famílias numero­sas atestam a saúde física e moral do povo cristão, a fé viva em Deus e a confiança em sua Providência, a santidade fecunda e feliz do casamento católico.
5. Sobre cada um desses testemunhos queremos di­zer-vos algumas breves palavras.

Famílias numerosas, garantia da saúde e moral de um povo
6. Entre as aberrações mais prejudiciais da moder­na sociedade pagã, deve-se destacar a opinião de al­guns que ousam definir a fecundidade dos casamen­tos como uma “doença social” que os países por ela atingidos deveriam esforçar-se para banir de todos os modos. Daí a propaganda daquilo que se designa co­mo “controle racional dos nascimentos”, sustentado por pessoas e entidades às vezes ilustres por outros títulos, mas infelizmente condenáveis por este. Mas, se é doloroso notar a difusão de tais doutrinas e prá­ticas, mesmo das classes tradicionalmente sãs, é no entanto reconfortante assinalar em vossa pátria os sin­tomas e os fatos de uma salutar reação, tanto no ter­reno jurídico como médico.
7. Como se sabe, a Constituição em vigor na Re­pública Italiana, para citar apenas uma fonte, concede, no artigo 31, uma “particular proteção às famílias nume­rosas, enquanto a doutrina mais em voga entre os médicos italianos toma cada dia mais força contra as práticas que limitam os nascimentos. No entanto, não se deve julgar que o perigo cessou e foram destruídos os preconceitos que tendem a sujeitar o casamento e suas sábias normas a culpáveis egoísmos individuais e sociais. Deve-se especialmente lamentar que a im­prensa volte, de tempos em tempos, ao problema, com a manifesta intenção de confundir as idéias do povo simples e induzi-lo em erro com documentações falsas, com inquéritos discutíveis e mesmo com declarações de­turpadas de tal ou qual eclesiástico.
8. Da parte católica, é preciso insistir para se pro­pagar a convicção, fundamentada na verdade, de que a saúde física e moral da família e da sociedade não se resguarda senão na obediência generosa às leis da natureza, isto é, do Criador, e antes de mais nada no respeito sagrado e interior nutrido por elas. Tudo nesse assunto depende da intenção. Poder-se-iam multiplicar as leis e agravar os sofrimentos, demonstrar por provas irrefutáveis a inanidade das teorias da limitação e os males que decorrem de sua aplicação; mas se faltar a sincera resolução de deixar o Criador realizar livre­mente a sua obra, o egoísmo humano saberá sempre encontrar novos sofismas e expedientes para fazer ca­lar, se possível, a consciência e perpetuar os abusos.
9. Ora, o valor do testemunho dos pais de famílias numerosas não consiste apenas em rejeitar sem meios- termos e com força dos fatos qualquer compromisso intencional entre a lei de Deus e o egoísmo do homem, mas na prontidão em aceitar com alegria e gratidão os inestimáveis dons de Deus que são os filhos, e no número que Lhe apraz. Esta disposição de espírito, ao mesmo tempo em que liberta os esposos de intoleráveis pesadelos e remorsos, traz consigo, conforme médicos autorizados, as premissas psíquicas mais favoráveis para o são desenvolvimento dos frutos próprios ao ca­samento, evitando na origem dessas vidas novas os tor­mentos e angústias que se transformam em taras físicas e psíquicas, tanto na mãe como na prole.
10. Na verdade, exceto casos excepcionais sobre os quais tivemos ocasião de falar de outras vezes, a lei da natureza é essencialmente harmonia e portanto não pro­duz desajustes e contradições senão na medida em que seu curso é perturbado por circunstâncias quase sem­pre anormais ou pela oposição da vontade humana. Não existe eugenia que saiba fazer melhor do que a na­tureza e só será salutar na medida em que respeitar as leis desta, após tê-las profundamente conhecido, tanto que em certos casos de pessoas deficientes, é aconselhável dissuadi-las de contrair matrimônio (Cf. Enc. “Casti Connubii”, 31-12-1930 — A. A. S. a. 22, 1930, p. 565). Aliás, sempre e em toda parte, o bom-senso popular viu nas famílias numerosas o sinal, a prova e a fonte da saúde física, enquanto a história não se engana quando aponta o desvio das leis do casamento e da procriação como uma primeira causa da decadência dos povos.
11. As famílias numerosas, longe de serem “doença social”, são a garantia da saúde física e moral de um povo. Nos lares em que sempre há um berço de onde se ouvem vagidos, as virtudes florescem espontaneamente, enquanto o vício se afasta como que ex­pulso pela infância, que aí se renova qual brisa fresca e vivificante da primavera.
12. Que os pusilânimes e egoístas sigam pois o vosso exemplo; que a pátria vos seja grata e tenha predile­ção por vós, por tantos sacrifícios que assumis crian­do e educando seus cidadãos; do mesmo modo a Igre­ja vos deve gratidão, pois, graças a vós e convosco, pode apresentar à ação santificadora do Espírito San­to multidões de almas cada vez mais sãs e numerosas.