sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Santo Súbito


I. Introdução:
O ponto de vista da imprensa
A beatificação de João Paulo II foi comunicada pela imprensa como um fato histórico sem precedentes, já que teve lugar em tempo recorde (ela foi proclamado beato seis anos e um mês depois de sua mente), e como um evento ao qual se chegou ao fim de um sério processo. Essa dupla afirmação carrega uma contradição fundamental, já que a seriedade do processo tradicional da beatificação se fundamenta em grande medida na extensão dos prazos, que é uma garantia de prudência. A essa cautela se opõe a precipitação de um processo acelerado. Essa contradição é indício claro e representa um legítimo ponto de apoio para a colocação de dúvidas. Vamos em seguida explicar por que podemos duvidar da seriedade da beatificação de João Paulo II.
II. Alguns princípios elementares
A beatificação é um ato mediante o qual o Sumo Pontífice concede uma permissão para que em certos lugares se dê culto público a um beato, até que este seja canonizado. Tal permissão não é um preceito; é algo temporal e reformável. A beatificação se limita a permitir o culto. O ato de beatificação não declara diretamente nem a glorificação nem as virtudes heroicas de um servo de Deus que tenha sido beatificado.

A canonização é o ato pelo qual o Vigário de Cristo, julgando em última instância e emitindo uma sentença definitiva, inscreve no catálogo dos santos um servo de Deus previamente beatificado. A canonização tem uma tripla finalidade e não se refere somente ao culto. Em primeiro lugar, o Papa declara que o fiel defunto está na glória celeste; em segundo, expressa que o fiel defunto mereceu alcançar essa glória por ter praticado virtudes heroicas, que constituem um exemplo para toda a Igreja; em terceiro, a fim de propor mais facilmente essas virtudes como exemplo e para agradecer a Deus por tê-lo feito possível, prescreve que ao fiel defunto se renda culto público. A esse triplo respeito a canonização é um preceito e obriga toda a Igreja, e constitui um ato definitivo e irreformável.

Tanto a beatificação quanto a canonização têm por objeto possibilitar o culto de um fiel defunto, o que implica que durante sua vida ele praticou virtudes exemplares e conseguiu a glória. A diferença radica em que a beatificação só permite o culto, supondo a glória e as virtudes exemplares, enquanto a canonização transforma esse culto em algo obrigatório e impõe aos fiéis o dever de crer explicitamente na realidade da glória e das virtudes heroicas do santo. O essencial de tudo isso recai sobre a virtude exemplar (ou heroica) do fiel defunto; é isso o que se procura esclarecer em ambos os processos, o de beatificação e o de canonização. De fato, o culto pressupõe a existência dessa virtude, à maneira como o efeito supõe sua causa. Os milagres, como tais, são levados em conta como sinais que referendam a virtude heroica. Sem virtude heroica não há santidade nem veneração.
Entre um santo e um santo canonizado se impõe uma diferença. A canonização não causa a santidade de uma pessoa, mas sim a indica e a apresenta como exemplo. Isso explica por que não se canoniza nem a todo o mundo nem a muitas pessoas. Para que o exemplo proposto possa impactar, deve ser único ou raro: mesmo se os santos fossem muitos, uns poucos entre eles, e não a maioria, deveriam ser elevados aos altares. Por outro lado, a Igreja sempre apresenta aqueles exemplos de que os fiéis precisam no contexto de certa época. Nesse sentido, a canonização é um ato político no melhor sentido do termo: não é um ato de demagogia partidária, mas um ato que procura o bem comum de toda a Igreja, um ato de implicação social e que leva em conta as circunstâncias.

Outra diferença a apontar é a que existe entre salvação e santidade. Uma pessoa morta em odor de santidade se salvou. Mas alguém pode salvar-se sem ter vivido como um santo. Aos olhos dos fiéis, a canonização tem o fim principal e o efeito imediato de assinalar (por apresentá-la como exemplo) a santidade de vida. Mesmo se se salvaram e foram ao céu, não se canonizarão pessoas que não deram exemplo de santidade durante sua vida.

A infalibilidade das canonizações é hoje doutrina comum e certa entre a maioria dos teólogos. Todos os tratados publicados depois do Concílio Vaticano I (e antes do Vaticano II), desde Billot até Salaverri, ensinam-no como tese comum em teologia.(1)
Observamos que Santo Tomás (2) levanta essa questão de maneira bem precisa: não se pergunta se o Papa é infalível quando canoniza um santo. O ponto consiste em saber se todos os santos canonizados pela Igreja estão na glória, ou se alguns deles podem estar no inferno. A forma como suscita a questão orienta a partir do início toda a resposta. Para Santo Tomás a canonização é infalível, antes de tudo, enquanto implica a profissão de uma verdade virtualmente revelada. Isso não exclui os outros dois aspectos: o exemplo de vida do santo e o culto prescrito.

Contudo, há uma ordem entre os três juízos que o Papa enuncia ao canonizar um santo.

primeiro juízo recai sobre um fato teórico e enuncia que um fiel defunto perseverou até o fim de sua vida na prática heroica da virtude sobrenatural, e se encontra atualmente glorificado na beatitude eterna.

segundo juízo apresenta a toda a Igreja as virtudes heroicas postas em prática durante sua vida pela pessoa canonizada na qualidade de exemplo a imitar.
terceiro juízo é um preceito que impõe o culto público desse santo a toda a Igreja.

A canonização apresenta como exemplo as virtudes heroicas do santo e faz obrigatório o seu culto. Não obstante, pressupõe o fato da glorificação do santo. Bento XIV (1740-1758), que cita e faz suas essas reflexões de Santo Tomás, considera que o juízo da canonização se baseia, em última instância, sobre a enunciação de uma verdade especulativa deduzida da revelação.(3)
É de fé definida que um santo canonizado está indubitavelmente na glória dos céus? A hipótese mais comum em teologia é que a negação dessa verdade não acarreta a pecha de heresia, já que não se opõe à fé senão de maneira indireta: se essa verdade é apresentada no contexto do ato de canonização, resulta definida, não como de fé divina e católica, mas comocerta ou de fé católica; negá-la seria errôneo ou falso.

É de fé definida que o Papa não pode equivocar-se quando canoniza um santo? Bento XIV afirma que a infalibilidade do ato de canonização ainda não foi definida como verdade de fé, mas que poderia sê-lo, e que negá-la equivaleria, se não a pecha de heresia, ao menos a de temeridade. Essa negação implicaria, ademais, uma injúria aos santos e um escândalo para a Igreja. Mereceria, por isso, ser castigada com as penas mais graves.(3)
III. Algumas incertezas problemáticas
Sem pretender pronunciar a última palavra (que fica reservada a Deus), podem-se apresentar no mínimo três grandes dificuldades, que tornam duvidosa a seriedade das novas beatificações e canonizações. As duas primeiras questionam a infalibilidade e a segurança desses atos; a terceira questiona sua própria definição.
1 – A insuficiência do procedimento
A divina assistência que causa a infalibilidade ou a segurança dos atos do magistério se exerce à maneira da Providência. Essa, longe de excluir que o Papa estude cuidadosamente as fontes da Revelação transmitida pelos Apóstolos, exige, ao contrário, tal investigação por sua própria natureza. Isso é muito mais necessário no caso de uma canonização, que implica verificar seriamente os testemunhos humanos que provam as virtudes heroicas do futuro santo e examinar a prova divina dos milagres, os quais devem ser ao menos dois para uma beatificação e outros dois mais para uma canonização.

O procedimento seguido pela Igreja até o Vaticano II foi expressão desse rigor extremo. O processo de canonização estava precedido por um duplo processo substanciado durante a beatificação: um, desenvolvido ante o tribunal ordinário, que atuava em nome próprio; outro, que estava exclusivamente nas mãos da Santa Sé. O processo de canonização incluía uma revisão do ato de beatificação, seguido do exame de dois novos milagres. O procedimento concluía quando o Papa firmava o decreto respectivo, mas antes de fazê-lo tinham lugar três consistórios sucessivos.
As novas normas, sancionadas por João Paulo II em 1983 com a Constituição Apostólica “Divinus perfectionis magíster”, confia o essencial do processo ao Bispo diocesano: este leva adiante a investigação da vida do santo, seus escritos, suas virtudes e milagres, e confecciona os documentos a transmitir à Santa Sé. A Sagrada Congregação examine esses antecedentes e se pronuncia antes de remitir tudo ao juízo do Papa. Já não se requer senão um só milagre para ser beatificado, e outro para ser canonizado. O acesso aos documentos do processo de beatificação e de canonização já não é fácil; não temos muitas possibilidades de verificar a seriedade com que se puseram em prática essas novas normas.

Contudo, é indubitável que, em si mesmo, o processo já não tem o rigor que tinha o antigo. É muito menos exigente em matéria de garantias que se requerem da parte dos homens da Igreja, a fim de que a divina assistência assegure a infalibilidade da canonização e, com maior razão, a ausência de erro de fato na beatificação. Ademais, o Papa João Paulo II decidiu não observar o procedimento atual (que dispõe que o início do processo de beatificação não pode ocorrer antes de cinco anos após a morte do servo de Deus), autorizando a introdução da causa da Irmã Tereza de Calcutá três anos depois de sua morte. Bento XVI fez o mesmo na beatificação de seu predecessor. A dúvida se torna muito mais legítima quando se considera quanta razão tinha a Igreja para agir parcimoniosamente nessas matérias.
2 – A colegialidade
Se examinarmos atentamente essas novas normas, percebemos que a legislação remonta ao estado que tinha antes do século XII: o Papa deixava nas mãos dos bispos o cuidado de julgar imediatamente acerca das causas dos santos e se reservava só o poder de confirmar a sentença dos bispos. Como explicar João Paulo II, essa regressão é consequência do princípio da colegialidade: “Pensamos que, à luz da doutrina da colegialidade ensinada pelo Vaticano II, convém muito que os bispos sejam associados mais estreitamente à Santa Sé quando se trata de examinar as causas dos santos”.(4)
Ora, a legislação do século XII compreendia a beatificação e a canonização em qualidade de atos de tipo não infalível.(5) Eis aí o que nos impede de assimilar pura e simplesmente as canonizações resultantes dessas reformas com os atos tradicionais do magistério extraordinário do Sumo Pontífice; porque esses atos são aqueles pelos quais o Papa se limita a autenticar o ato de um bispo ordinário residencial.

Temos aqui um primeiro motivo que nos permite duvidar seriamente do correto cumprimento das condições requeridas para o exercício da infalibilidade das canonizações. O Motu Proprio “Ad tuendam fidem”, de 29 de junho de 1998, aumenta essas dúvidas. Tal texto legislativo tem a finalidade de voltar a explicar certas normas do Código de 1983 e introduzir outras que se fizeram necessárias em razão da nova Profissão de Fé publicada em 1989. Em primeira instância se afirma que as canonizações são, por princípio, infalíveis. Logo o texto estabelece distinções que diminuem o papel da infalibilidade das canonizações, já que a infalibilidade já não é entendida claramente segundo seu sentido tradicional.

Isso é ao menos o que surge da leitura do documento redatado pelo Cardeal Ratzinger, que serve como comentário oficial a esse Motu Proprio de 1998.(6) O comentário explica de que maneira o Papa pode exercer doravante seu magistério infalível. Até então conhecíamos o ato pessoalmente infalível e definitório da locutio ex cathedra, e os decretos dos concílios ecumênicos. Agora também teremos um ato que não será nem pessoalmente infalível nem definitório por si mesmo, mas que será um ato do magistério ordinário do Papa: esse ato terá por objeto discernir uma doutrina como ensinada  infalivelmente pelo magistério ordinário universal do colégio episcopal. Segundo esse terceiro modo, o Papa atua como um simples intérprete do magistério colegial.

Ora, se reparamos nas novas normas promulgadas em 1983 pela Constituição Apostólica “Divinus perfectionis magister” de João Paulo II, é claro que no caso preciso das canonizações o Papa – segundo as necessidades da colegialidade – exercerá seu magistério conforme esse terceiro modo. Se levarmos em conta tanto a Constituição Apostólica“Divinus perfectionis magister” de 1983 quanto o Motu Proprio “Ad tuendam fidem” de 1998, quando o Papa exerce seu magistério pessoal para proceder a uma canonização, parece que sua vontade consiste em intervir como órgão do magistério colegial; as canonizações já não estão garantidas pela infalibilidade pessoal do magistério solene do Sumo Pontífice. Haverão de estar pela infalibilidade do magistério ordinário universal do colégio episcopal?

Até agora toda a tradição teológica nunca disse que tal seja o caso; sempre considerou a infalibilidade das canonizações como fruto de uma assistência divina dada só ao magistério pessoal do Papa, assimilável à locutio ex cathedra. Com isso temos um segundo motivo que nos autoriza a duvidar seriamente da infalibilidade das canonizações realizadas em concordância com essas reformas pós-conciliares.
3 – A virtude heroica
O objeto formal do ato magisterial das canonizações é a virtude heroica do santo. Assim como o magistério é tradicional enquanto ensina sempre as mesmas verdades imutáveis, do mesmo modo a canonização é tradicional enquanto deve assinalar sempre a mesma heroicidade das virtudes cristãs, começando pelas virtudes teologais. Em consequência, se o Papa propõe como exemplo a vida de um fiel defunto que não praticou virtudes heroicas, ou se as apresenta sob uma nova ótica, inspiradas mais na dignidade da natureza humana que na ação sobrenatural do Espírito Santo, é difícil considerar tal ato como uma canonização.

Mudar o objeto implica mudar o ato. Essa mudança de perspectiva se apresenta na nova teologia e no magistério pós-conciliar. Omite-se a distinção entre uma santidade comum e uma santidade heroica, na qual consiste a santidade: inclusive o termo “virtude heroica” não aparece em nenhuma passagem dos textos do Vaticano II.

Depois do Concílio, quando os teólogos falam do ato de virtude heroica, têm mais ou menos a tendência a defini-lo distinguindo-o do ato de virtude simplesmente natural, em lugar de distingui-lo do ato ordinário de virtude sobrenatural.
Essa mudança de ótica se comprova também quando se considera a orientação ecumênica da santidade que apareceu depois do Vaticano II. A orientação ecumênica da santidade foi afirmada por João Paulo II na encíclica “Ut unum sint”, assim como na Carta Apostólica “Tertio millenio advenientei”. O Papa se refere a uma comunhão de santidade que transcende as diferentes religiões e que manifesta a ação redentora de Cristo e a efusão de Seu Espírito sobre toda a humanidade. Quanto ao Papa Bento XVI, devemos reconhecer que confere à salvação uma definição orientada nesse mesmo sentido ecumenista, e que por isso falsifica a noção de santidade, correlativa da salvação sobrenatural.(7)
Portanto, pode-se duvidar seriamente de que os atos dessas novas beatificações e canonizações estejam em real continuidade com a Tradição da Igreja.

4 – Conclusão
Três sérias razões autorizam o fiel católico a duvidar da seriedade das novas beatificações e canonizações. Em primeiro lugar, as reformas implantadas depois do Concílio trouxeram insuficiências claras no procedimento. Em segundo lugar, introduziram uma nova intenção colegialista. Essas duas consequências são incompatíveis com a segurança das beatificações e com a infalibilidade das canonizações. Em terceiro lugar, o juízo que ocorre no processo está tingido por uma concepção nova e ao menos equívoca, e portanto duvidosa, da santidade e da virtude heroica. No contexto das reformas pós-conciliares, o Papa e os bispos propõem à veneração dos fiéis católicos santos autênticos, mas canonizados ao término de um procedimento insuficiente e duvidoso. Ninguém põe em dúvida a heroicidade das virtudes de um Padre Pio, canonizado após o Vaticano II, mas ao mesmo tempo cabem dúvidas diante desse novo tipo de processo que levou à proclamação de suas virtudes.

Por outra parte, o mesmo processo faz possíveis canonizações que antes eram inconcebíveis, concedendo-se assim o título de santo a fiéis defuntos cuja reputação é controversa, e cuja heroicidade de virtudes não refulge com brilho insigne. Estamos seguros de que, na intenção dos Papas que fizeram tais canonizações do novo tipo, a virtude heroica é a mesma que tinham seus predecessores até o Vaticano II? Essa situação inédita se explica em razão da confusão introduzida pelas reformas pós-conciliares e não pode resolver-se a menos que se vá ao fundo do assunto e se questione o mérito dessas reformas.
IV. Algumas certezas práticas
Primeira certeza:
João Paulo II mereceu ser beatificado? João Paulo II nos deu exemplo de virtudes heroicas; deu mau exemplo, quer dizer, escândalo, atitudes gravemente prejudiciais para o bem das almas, sobretudo mediante seus duvidosos ensinamentos e seu ecumenismo. Sobretudo desautorizou publicamente a obra da resistência católica ao excomungar a Dom Lefebvre.

Segunda certeza:
João Paulo II viveu santamente? Objetivamente (se se consideram seus atos), João Paulo II não foi um Papa digno desse nome. Subjetivamente (se se atende a suas intenções) é impossível pronunciar-se porque desconhecemos as intenções. Inclusive se João Paulo II esteve animado das melhores intenções, para julgar acerca de sua santidade é preciso ater-se a seus atos, não a suas intenções.

Terceira certeza:
Salvou-se João Paulo II? É possível que João Paulo II não tivesse plenamente consciência das consequências prejudiciais de seu ensino e de sua pastoral, que essa ignorância o escuse mais ou menos, e que sua alma chegue finalmente (se não é que tenha chegado já) à glória eterna do céu. Não obstante, tudo isso fica reservado no segredo de Deus.

Quarta certeza:
Ficamos obrigados pela beatificação de 1º de maio? Não ficamos obrigados em virtude de três razões: primeiro, porque é uma simples permissão e se trata de um ato que não é infalível; segundo, porque as reformas que ocorreram depois do Concílio (Motu Proprio “Divinus perfectionis magister”,25 de janeiro de 1983), estão animadas por uma intenção colegialista, incompatível com a segurança das beatificações e com a infalibilidade das canonizações; terceiro, porque no juízo que ocorreu durante o processo imperou uma concepção modernista da santidade e da virtude heroica.
Padre Jean-Michel Gleize, F.S.S.P.X
NOTAS:
(1) Salaverri: “De Ecclesia”, tese 17, § 726, afirma que é uma verdade ao menos teologicamente certa, se não implicitamente definida.
(2) Quodlibet 9, art. 16.
(3) Bento XIV: “De servorum Dei beatificatione et beatorum canonizatione”, n° 12.
(4) Constituição Apostólica “Divinus perfectionis magister”, AAS, 1983, pág. 351. Esse texto de João Paulo II é citado por Bento XVI em sua “Mensagem aos membros da Assembleia Plenária da Congregação para a Causa dos Santos”, 24 de abril de 2006, publicado na edição em língua francesa de“L’Osservatore Romano”, 16 de maio de 2006, pág. 6.
(5) Bento XIV: “De servorum Dei beatificatione et beatorum canonizatione”,lib. 1, cap. 10, n° 6.
(6) § 9 da Nota da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, AAS 1998, pág. 547-548.
(7) Bento XVI: Discurso pronunciado durante o encontro ecumênico no Arcebispado de Praga, no domingo de 27 de setembro de 2009,“Documentation Catholique”, nº 2433, págs. 971-972: “O termo salvação possui múltiplos significados, sem prejuízo do qual ele reflete algo de fundamental e de universal concernente à aspiração humana ao bem-estar e à plenitude. Evoca o ardente desejo de reconciliação e de comunhão que nasce do profundo do espírito humano”.

Fonte:
Revista Iesus Christus(FSSPX)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A quem devemos imitar? (João Paulo II vs. Os santos)




Nos outros artigos da revista “Iesus Christus” nº 134, nosso leitor poderá encontrar uma exposição teológica das dificuldades relativas à beatificação de João Paulo II. Como costumava dizer Dom Lefebvre, bem-aventurados os católicos que não tiveram de defrontar tal problema! Ter de julgar o próprio Papa!

Mas em realidade não somos nós que emitimos um juízo, senão 2000 anos de vida e de ensino da Igreja; é o próprio Evangelho pregado por Nosso Senhor Jesus Cristo; são os santos, com suas obras e doutrina. Quando a vida de uma pessoa, seus ensinos e ações coincidirem com a de Nosso Senhor e de santos, sabemos que podemos seguir com tranquilidade seu exemplo para alcançar a vida eterna. Desse modo falava São Paulo aos Coríntios (1Cor 11,1): “Sede imitadores meus como sou de Cristo“. Ao invés, se encontramos uma contradição entre a vida de tal pessoa e a dos Santos, não podemos imitá-la, pois seu exemplo nos afasta do caminho do céu.

Que pensa da vida de João Paulo II? Coincidiu com o Evangelho e o exemplo dos santos? Podemos seguir seus passados com tranquilidade?
Sem esquecer a gravidade do assunto e conservando o respeito devido à dignidade pontifícia, trataremos de responder à pergunta expondo as graves dificuldades suscitadas pelo pontificado do recente beato e os fatos que as fundamentam. De modo paralelo recordaremos os ensinos e práticas correlativas dos santos e papas anteriores. Dessa forma saberemos se verdadeiramente podemos imitar o novo beato para alcançarmos a vida eterna.
Primeira dificuldade:
Em nome do ecumenismo, João Paulo II renunciou a converter as almas à fé católica. Afirmou que todas as religiões são caminho de salvação. Desse modo deixou milhares de almas no caminho da perdição.
– Os fatos: “Desde o começo de meu pontificado, fiz do ecumenismo a prioridade de minha preocupação e ação pastoral” (1), dizia João Paulo II. Nessa pastoral o guiaram os ensinamentos do Concílio Vaticano II: “Embora creiamos que as igrejas e comunidades separadas tenham seus defeitos, não estão desprovidas de sentido e de valor no mistério da salvação, porque o Espírito de Cristo não Se recusa a servir-se delas como meios de salvação”.(2) Por isso disse que “a Igreja deseja estabelecer relações positivas e construtivas com grupos humanos de credos diferentes, com vistas a um enriquecimento recíproco”.(3) O Cardeal Kasper, que ele em 2001 nomeou como Presidente do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos, disse que “a ação pastoral da Igreja católica tanto latim quanto oriental já não tende a fazer passar os fiéis de uma Igreja para outra”;(4) “o ecumenismo não se faz renunciando à nossa própria tradição de fé. Nenhuma Igreja pode fazer essa renúncia”.(5) E acrescentava ainda mais: “Podemos descrever o ‘ethos’ [regra de conduta] próprio do ecumenismo de vida da seguinte maneira: a renúncia a toda forma de proselitismo, seja aberto, seja camuflado”.(6) Seguindo esses princípios, é verdade que João Paulo II nunca chamou à conversão os que pertenciam a outras religiões.

– Os santos e papas anteriores: Nosso Senhor Jesus Cristo disse: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. O que crer e for batizado será salvo; mas o que não crer será condenado” (Marcos 16,15-16). São João Batista dizia que “o que crê no Filho tem a vida eterna; o que recusa crer no Filho não verá a vida, mas está sobre ele a cólera de Deus” (João 3,36). O Papa Pio IX, retomando a Tradição da Igreja, dizia que “bem conhecido é (…) o dogma católico, a saber, que ninguém pode salvar-se fora da Igreja Católica”.(7) Pondo em prática essas palavras, os Apóstolos e os Santos missionários como São Paulo (+ 67, Apóstolo), São Patrício (+464, Bispo), São Bonifácio (754, Bispo), São Francisco Xavier (+ 1552, Sacerdote), foram pregar a conversão ao Evangelho ao mundo inteiro. Também os santos apologistas, como São Justino (+168, filósofo), São Cirilo de Jerusalém (+ 386, Doutor da Igreja), Santo Hilário (+ 368, Doutor da Igreja), publicaram abundantes escritos para mostrar a verdade da Igreja católica e a falsidade das outras religiões.
 
Segunda dificuldade:
Por sua pastoral ecumenista, João Paulo II confirmou os protestantes em seu erro. Não condenou as heresias de Lutero, mas buscou conciliar com elas a doutrina católica.

– Os fatos: No curso de uma de suas viagens à Alemanha, passando por Frankfurt, disse: “Hoje venho a vós, à herança espiritual de Martinho Lutero, venho como um peregrino”.(8) Por ocasião do 500º aniversário do reformador, escreveu ao Cardeal Willebrands que sobre a base das mais recentes investigações históricas “se revelou de maneira convincente o profundo espírito religioso de Lutero, animado de uma paixão ardente pela questão da salvação eterna”.(9) Seguindo os princípios do ecumenismo e levado por seu apreço por Lutero, em 11 de dezembro de 1983 foi rezar no templo protestante luterano de Roma, pelo qual se despojou de todo sinal externo que manifestasse a autoridade pontifícia. Escutou a leitura desde o púlpito de uma oração de Lutero, que ele mesmo escolhera antes de ir. Em 31 de outubro de 1999 se publicou a Declaração conjunta sobre a justificação, na qual, com vistas ao ecumenismo, puseram-se entre parênteses os dogmas católicos negados pelos protestantes e se retomaram várias afirmações de Lutero.

- Os santos e papas anteriores: Em primeiro lugar, recordemos que os erros luteranos foram condenados solenemente pelo Papa Leão X (10) e pelo Concílio de Trento. Ademais, Lutero traiu seus votos monásticos e suas promessas sacerdotais. Induziu a monja cisterciense Catarina de Bora a violar seus votos para unir-se com ele em concubinato sacrílego. Destruiu a fé católica, a unidade política e a paz de meia Europa. Animava-o um espírito de orgulho tão grande que escreveu libelos tais como “O Papa asno”, expressando, além do mais, toda a sua obscena vulgaridade nas Tischreden (Conversas à Mesa). Santo Afonso (+ 1787, Doutor da Igreja) dizia que a doutrina de Lutero era em realidade a “doutrina do diabo”.(11) Por isso São Roberto Belarmino (+ 1621, Doutor da Igreja) e São Francisco de Sales (+1622, Doutor da Igreja) dedicaram anos de sua vida a refutar a doutrina de Lutero e a converter os protestantes. São Fidel de Sigmaringa (+1662, Capuchinho) pôs sua vida em perigo com o fim de pregar a conversão aos protestantes. De fato, seu zelo lhe custou a vida: morreu martirizado na Suíça pelos protestantes.
Terceira dificuldade:
Por sua pastoral ecumenista, João Paulo II renunciou a converter os ortodoxos cismáticos. Deixou-os pensar que podiam salvar-se no cisma.
– Os fatos: Em 16 de junho de 1981, por causa do atentado de 13 de maio, João Paulo II ainda estava internado. Por isso convidou o metropolita Damaskinos, ortodoxo não católico, para que falasse em seu lugar na basílica de São Pedro do Vaticano. Para agradar aos ortodoxos também rezou várias vezes o Credo sem dizer o “Filioque”,(12) fórmula rechaçada por eles. Em junho de 1993, publicou-se a Declaração da Comissão mista para o diálogo entre a Igreja Católica e a igreja ortodoxa, na qual se reconheciam as comunidades ortodoxas não católicas como autênticas igrejas legítimas, lamentava-se o zelo das igrejas católicas uniatas pela conversão dos que permaneciam ainda fora da Igreja católica, e se proibia no futuro o proselitismo, ou seja, a busca da conversão dos ortodoxos não católicos. Em 2004, para fomentar a união, entregou as relíquias de São Gregório Nazianzeno e São João Crisóstomo, conservadas no Vaticano, ao Patriarca Bartolomeu I.
- Os santos e papas anteriores: Os Santos Doutores nunca deixaram que os hereges ou cismáticos pregassem em suas igrejas, mas os condenaram e preveniram seus fiéis contra as falsas doutrinas deles. Por isso o Papa São Leão IX anatematizou Miguel Cerulário,(13) que causou o cisma do Oriente. Por isso o Papa Gregório XIII prescreveu solenemente aos gregos católicos que se rezasse o “Filioque” na profissão de fé, porquanto expressa a verdade católica sobre a processão do Espírito Santo, o Qual procede do Pai e do Filho. Depois da ruptura, convencidos de que o Senhor edificou Sua Igreja sobre Pedro (Mateus 16,18) e só sobre ele, os Santos buscaram com afã a conversão dos cismáticos. São Pedro Tomás (+1366, Bispo) trabalhou ardentemente para conseguir a conversão do Imperador de Constantinopla, João Paleólogo. Na Polônia, São Josafá (+1623, Bispo) dedicou sua vida a buscar as ovelhas perdidas e morreu mártir nas mãos dos cismáticos.

Quarta dificuldade:
João Paulo II manifestou admiração pelo Islã. Não buscou a conversão dos muçulmanos, mas os confortou em suas crenças e princípios morais errôneos.

- Os fatos: Em 19 de maio de 1985, afirmou que “cristãos e muçulmanos nos encontramos na fé no Deus único, nosso criador, nosso guia, nosso juiz clemente e misericordioso. Todos nos esforçamos para por em prática, em nossa vida cotidiana, a vontade de Deus, seguindo os ensinamentos de nossos respectivos livros sagrados”, seja a Bíblia, para os católicos, seja o Corão, para os muçulmanos. No transcurso do ano de 1994, pediu ao prefeito de Roma que cedesse gratuitamente um terreno para a construção de uma mesquita.(14) E para mostrar o apreço e o respeito que tinha pelo Islã, em 14 de maio de 1999 beijou publicamente o Corão. Foi também o primeiro Papa a entrar numa mesquita, em 6 de maio de 2001.(15)
- Os santos e papas anteriores: Recordemos que no Corão se leem afirmações como estas: “Certamente foram infiéis os que disseram: Alá é o Messias, filho de Maria“; “os infiéis não são senão impureza e imundice; que não se aproximam da mesquita“; “combatereis contra eles (os infiéis) ou eles se converterão ao Islã” (16). “No tocante à moral, dizia Santo Afonso de Ligório, o Corão permite roubar como cada um quiser; permite ter tantas mulheres quantas se possa alimentar, divorciar como se queira (…), ordena a guerra e a vingança (…), manda matar a quem não adere à sua fé. O Corão pede que se tenha comunicação com os demônios, para adivinhar por meio de feitiços e sortilégios.(17) Ademais, o livro fundamental do Islã promete aos muçulmanos um paraíso de amor carnal, fundado sobre o vício.

Na história da Cristandade, os Papas exortaram o poder temporal a que combatesse e rechaçasse os assaltos islâmicos; e para comemorar cada vitória instituíam uma nova festa litúrgica. Assim o Papa Calisto III (+1458), pelo triunfo que deteve os islâmicos perto de Belgrado em 1456, estendeu à Igreja inteira a festa da Transfiguração (6 de agosto). Para recordar a vitória de Lepanto, São Pio V (+ 1572) instituiu a festa de Nossa Senhora do Rosário (7 de outubro), e em 1683 o Beato Inocêncio XI (+ 1689) estendeu a toda a Igreja a festa do Santo Nome de Maria (12 de setembro), em razão da vitória obtida contra os turcos por João Sobieski (+ 1696, Rei da Polônia) em Viena.
Santo Eulógio de Córdoba (+ 859, mártir) dedicou sua vida a proteger seu rebanho da infidelidade maometana. Muitos de seus fiéis morreram mártires, e ele mesmo foi decapitado depois de ter tratado de converter o juiz muçulmano que o condenava.

Santo Aventino (+ 813, mártir), depois de ter arriscado sua vida durante anos para exercer seu ministério em terras ocupadas pelos muçulmanos, foi finalmente torturado e degolado por eles.

Santo Emiliano (+ 725, Bispo), recordando o exemplo dos Macabeus, convidou seus fiéis a tomar as armas contra o perigo muçulmano. Morreu no combate, alentando seus filhos: “não temais uma morte que leva à vida”.
São Francisco de Assis (+ 1226, Fundador dos franciscanos) visitou o sultão Al-Kamel para pregar-lhe a conversão ao Evangelho. Do mesmo modo, o Padre Charles de Foucauld (+ 1916, eremita de notória santidade) dedicou sua existência à conversão dos muçulmanos do Saara.

 Quinta dificuldade:
Aproximou-se dos judeus sem chamá-los à conversão, deixando-os pensar que crer em Cristo é facultativo e que o Antigo Testamento continue vigente.
– Os fatos: Seguindo o espírito do Concílio Vaticano II,(18) afirmou que “os filhos de Israel são nossos ‘irmãos maiores’”,(19) que têm “a fé no único, inefável Deus que nos interpela” e que “a Antiga Aliança nunca foi rechaçada por Deus”.(20) Em 13 de abril de 1986, em Roma, foi o primeiro Papa a visitar uma sinagoga, e para não incomodar os seus hóspedes retirou do peito o crucifixo. Para mostrar que estavam em pé de igualdade, prepararam-se duas cadeias idênticas para ele e para o grão-rabino, e tiveram o mesmo tempo para falar. Aí disse ele que “a religião judaica é intrínseca à nossa religião (…); sois nossos irmãos preferidos e, de certo modo, poder-se-ia dizer, nossos irmãos mais velhos (…); estamos dispostos a aprofundar o diálogo em lealdade e amizade, no respeito das convicções íntimas de uns e de outros”.(21)
Em 26 de março de 2000 foi a Jerusalém e pediu perdão aos judeus pelos males que sofreram durante 2000 anos por causa dos cristãos. Com esse mesmo fim, introduziu uma mensagem em um dos interstícios das pedras do Muro das Lamentações, que é o lugar mais sagrado do judaísmo contemporâneo. Várias vezes recebeu no Vaticano os representantes da religião mosaica, e sua atitude favorável ao judaísmo lhe mereceu numerosos reconhecimentos por parte dos filhos de Israel.
- Os santos e papas anteriores: Como manifestam as promessas divinas feitas a Abraão, Isaac e Jacó,(22) o povo hebreu foi eleito por Deus com o fim de preparar a vinda do Messias. Por essa razão Santo Tomás (+ 1274, Doutor da Igreja) afirmava que “o fim do Antigo Testamento é o Novo Testamento” (23) e que “o estado da antiga lei foi instituído para figurar o mistério de Cristo”.(24)
Nosso Senhor Jesus Cristo veio dar cumprimento e completar a lei mosaica, de tal modo que a Antiga Aliança foi revogada e cedeu lugar a uma nova Aliança, mais perfeita e eterna, que o Filho de Deus selou com Seu Sangue sobre a Cruz: “isto é o Meu Sangue, o Sangue do Novo Testamento, que será derramado por muitos para remissão dos pecados” (Mateus 26,28). Portanto, não se pode dizer que o Antigo Testamento tenha continuado vigente depois da vinda de Cristo. Afirmá-lo seria negar que Jesus seja o Messias.

Por outro lado, o Senhor afirmou claramente a absoluta necessidade da fé n’Ele para alcançar a vida eterna: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida: ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14,6); “Eu sou a porta; aquele que por mim entra se salvará e entrará e sairá e achará pastagem” (João 10,9); “Quem crê n’Ele (Jesus) não é condenado; mas aquele que não crê já está condenado, porque não crê no nome do Filho Unigênito de Deus” (João 3,18).
Seguindo as mesmas palavras do Salvador, os Santos sempre ensinaram a necessidade absoluta da fé no Verbo encarnado para agradar a Deus e salvar-se. São João Batista dizia: “O Pai ama o Filho e pôs todas as coisas em Sua mão. Aquele que crê no Filho de Deus tem a vida eterna; mas quem não crê no Filho não verá a vida, mas, ao contrário, a ira de Deus permanece sempre sobre sua cabeça” (João 3,35-36). São João escrevia que “Cristo é a própria verdade” (1João 5,5); “a lei foi dada por Moisés; mas a graça e a verdade foram trazidas por Jesus Cristo” (João 1,17), de tal maneira que todo aquele que rechaça a Jesus está necessariamente no erro e não pode acender a Deus: “Quem é o mentiroso senão o que nega que Jesus é o Cristo? Eis o Anticristo, o que nega o Pai e o Filho. Qualquer um que nega o Filho não tem o Pai; quem confessa o Filho possui também o Pai” (1João 2,22-23).

Por isso os Santos sempre convidaram os judeus a reconhecer a Jesus como Messias e a converter-se. Assim o primeiro Papa, São Pedro, dizia no dia de Pentecostes: “Convença-se, pois, toda a casa de Israel de que Deus constituiu Senhor e Cristo a esse mesmo Jesus que vós crucificastes (…). Fazei penitência e seja batizado cada um de vós no nome de Jesus Cristo para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo” (Atos 2,36.38).
Em outra oportunidade afirmava novamente que “Ele (Jesus) é a pedra rejeitada por vós, os construtores, que se tornou pedra angular. Em nenhum outro há saudação, pois nenhum outro nome foi dado sob o céu, entre os homens, pelo qual possamos ser salvos” (Atos 4,11-12).

Santo Estêvão (século I, primeiro mártir) foi apedrejado porque pregava a conversão aos judeus e afirmava que via a “Jesus de pé à direita de Deus” (Atos 7,55). São Paulo passou sua vida pregando e demonstrando que “Jesus é o Messias” (Atos 9,22), afirmando incansavelmente que “há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus” (II Timóteo 2,5).

Sexta dificuldade:
João Paulo II presenciou ritos pagãos e ainda aprovou ritos de bruxaria e feitiços que honram o demônio:
– Os fatos: Em 10 de agosto de 1985, durante sua visita pastoral ao Togo (África), foi rezar no bosque sagrado animista. Enquanto chegava a seu posto, o Aveto do bosque sagrado – um ancião consagrado ao culto dos espíritos dos defuntos – começou a invocar os espíritos dos antepassados: “Poder da água, eu te invoco; antepassados ‘Be’, eu vos invoco…” O jornal oficioso do Vaticano comentou que “foi realmente uma homenagem aos antepassados o primeiro gesto feito por João Paulo II ao chegar a Togoville. Foi-lhe entregue uma cabaça cheia de água e de farinha de milho. O Papa a tomou entre as mãos e depois de uma ligeira inclinação espargiu a água ao redor. Fez o mesmo nesta manhã, antes de celebrar a missa”. Isso significa que “a água se compartilha com os antepassados derramando-a na mesma terra que conserva os restos mortais desses e seu espírito”.(25)
Em 2 de fevereiro de 1986, começando sua viagem à Índia, durante a missa maior em Nova Deli, prestou-se a outra cerimônia animista. Em Madras recebeu a cana de açúcar trançada em forma de báculo, que significa a oferenda hindu ao deus carnal, e se lhe impuseram as cinzas sagradas. Três dias antes já tinha recebido na fronte a marca de pó vermelho dos hinduístas, sinal de reconhecimento dos adoradores de Shiva.(26)
Em 4 de fevereiro de 1993, durante sua viagem a Benin (África), reuniu-se com os bruxos vodus e lhes disse: “A Igreja deseja estabelecer relações positivas e construtivas com grupos humanos de credos diferentes com vistas a um enriquecimento recíproco. O Concílio Vaticano II (…) reconheceu que há coisas boas e verdadeiras, sementes do Verbo, nas diferentes tradições religiosas (…). É legítimo sentir-se agradecidos aos anciões do rito vodu que transmitiram o sentido do sagrado, a fé num Deus único e bom, o gosto pela celebração, a estima pela vida moral e a harmonia na sociedade.(27)
Um diário ultralaicista comentava da seguinte forma a viagem: “Em confirmação de uma disponibilidade ao diálogo sem exclusões de nenhum tipo, João Paulo Ii se reunirá com sacerdotes e sacerdotisas do culto vodu, os misteriosos adoradores do “bezerro de ouro” e a serpente Damballah, por ocasião de sua décima viagem africana. O programa, publicado ontem, anuncia uma reunião sua em Cotonú, em Benin, com os adeptos desse antigo culto, que se expressa com sacrifícios de animais, manifestações de magia branca e negra, e desenfreadas danças propiciatórias de bruxos e bruxas. Desde o Benin, através do Oceano, o culto vodu se arraigou sobretudo no Haiti, onde se dança a erótica ‘banca’ (…). Quando têm de dar presentes, os sacerdotes do vodu oferecem objetos contra os malefícios, à vezes pesados, que se deve pendurar na porta da casa. Os mercados de Cotonú estão cheios deles. No dizer de muitos ocidentais, os ‘feitiços’ e os ‘contrafeitiços’ vodu são eficacíssimos”.(28)
Várias vezes manifestou também seu apreço pela religião budista, em razão de “seus altos valores espirituais, tais como a pureza, o desprendimento do coração, o amor à beleza da natureza”.(29)
- Os santos e papas anteriores: O Antigo Testamento condena em inumeráveis lugares a prática da idolatria, pela simples razão de que “todos os deuses das nações [os pagãos] são demônios” (Salmo 95,5). São Paulo dizia: “caríssimos meus, fugi do culto dos ídolos (…); as coisas sacrificadas pelos gentis são sacrificadas aos demônios, e não a Deus. E não quero que tenhais qualquer parte, nem por sombra, com os demônios” (1Cor 10,14-22).
E São João: “Sabemos que somos de Deus, enquanto o mundo todo está sob o maligno, e sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu inteligência para conhecermos o que é verdadeiro; e nós estamos no Verdadeiro, em Seu Filho Jesus Cristo. Ele é o verdadeiro Deus e a vida eterna. Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (1João 5,19-21).
Por isso os Pontífices condenaram a mais leve participação nos cultos pagãos; assim o Papa Bento XIV (+ 1758) na constituição “Ex quo Singulari”de 1742.
Na época do império romano, milhares de mártires morreram porque não queriam queimar incenso aos deuses pagãos, como por exemplo os Santos Nereu, Aquileu, Domitila, Eufrosina e Teodora (+ século I). São Cipriano (+ 258, Bispo de Cartago) rejeitou associar o culto dos ídolos ao do verdadeiro Deus, e recebeu sua sentença de morte dizendo: “Bendito seja Deus“.

Sétima dificuldade:
João Paulo II convidou as falsas religiões a rezar para seus falsos deuses. Presenciou encontros ecumênicos que levaram as almas a um indiferentismo próprio aos inimigos da Igreja.
– Os fatos: Em várias oportunidades, convidou a encontros com representantes de outras religiões, com o fim de rezar pela paz. Desse modo em 27 de outubro de 1986 teve lugar a primeira reunião de Assis; seguiu outra reunião na mesma cidade em 9 de janeiro de 1993, e uma última em 24 de janeiro de 2002.

Afirmou que a presença comum dos representantes de várias religiões se fundava “em última análise no mútuo reconhecimento e no respeito recíproco tanto do caminho seguido por cada qual como da religião a que pertence cada um enquanto caminho de acesso a Deus.(30) Alegrou-se de que rezavam todos “com uma só voz ao Senhor da história pela paz do mundo.(31)
Essas iniciativas lhe mereceram as felicitações da Maçonaria. Assim a Civiltá Cattolica escreveu: “Os mações da Grande Loja Nacional da França desejam associar-se de todo o coração à oração ecumênica que em 27 de outubro reunirá em Assis, a favor da paz no mundo, responsáveis de todas as religiões.(32)
O Grande Oriente da Itália lhe manifestou sua completa aprovação: “A sabedoria maçônica estabeleceu que ninguém pode ser iniciado se não crê no Grande Arquiteto do Universo, mas que ninguém pode ser excluído de nossa família por causa do Deus em que crê e do modo em que o honra. A esse interconfessionalismo nosso se deve a excomunhão que Clemente XII fulminou contra nós em 1738. Mas a Igreja se equivocava, certamente, se é verdade que em 27 de outubro de 1986 o pontífice atual congregou em Assis homens de todas as confissões religiosas para rezar juntos pela paz. E que outra coisa iam buscando nossos irmãos senão o amor entre os homens, a tolerância, a defesa da dignidade humana, quando se reuniam nos templos, considerando-se iguais, acima das fés políticas, das fés religiosas e da diferente cor de pele?“(33)
- Os santos e papas anteriores: As reuniões inter-religiosas foram condenadas especialmente pelo Papa Pio XI, porque se fundam na “falsa opinião dos que pensam que todas as religiões são, com pouca diferença, boas e louváveis”. Por isso, “claramente se vê que nem a Sé Apostólica pode de maneira alguma participar em ditos Congressos nem de modo algum podem os católicos favorecer ou cooperar com semelhantes intentos; e, se o fizessem, dariam autoridade a uma falsa religião cristã, totalmente alheia à única e verdadeira Igreja de Cristo.(34)
Com relação à maçonaria, desde o século XVIII os Papas não se cansaram de denunciar e condenar seus fins anticristãos.

Oitava dificuldade:
João Paulo II colaborou com a descristianização dos Estados, fomentando sua separação da Igreja e considerando o laicismo como um ideal. Renunciou a condenar o comunismo.

- Os fatos: Em 18 de fevereiro de 1984, ele aprovou a nova Concordata entre o Vaticano e a República Italiana, em que desaparece o caráter sagrado de Roma e “se considera que já não está em vigor o princípio (…) segundo o qual a religião católica é a única religião do Estado italiano“. Pareceu-lhe nesse momento que esse novo acordo era uma “inspiração ideal” portadora “de bem moral” e de “progresso civil.(35) Visitou ou tomou contato com países com Espanha, Itália, Índia, Polônia, União Soviética, Coreia e China, nos quais reinava o comunismo ou o socialismo sem condená-lo. Só promoveu a democracia universal e a liberdade religiosa.(36)
- Os santos e papas anteriores: A necessidade do Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo foi constantemente afirmada pelos papas ao longo da história. Foi recordada especialmente por Pio XI.(37) Fomentando tal Reinado, Santo Ambrósio (+397, Doutor da Igreja) fez declarar ao imperador Valentiniano II que os imperadores tinham de estar às ordens de Deus, assim como os cidadãos tinham de estar às ordens do imperador como soldados. São Porfírio (+420, Bispo) escreveu a São João Crisóstomo (+407, Doutor da Igreja) para pedir-lhe que convencesse o Imperador a ordenar a destruição dos templos pagãos. São Bernardo (+1153, Doutor da Igreja) percorreu a Europa para reformar a Cristandade e para que o Evangelho fosse a lei universal dos Estados. São Remígio (+533, Bispo) fez todo o possível para que Clóvis deixasse o paganismo e logo apoiasse o cristianismo em seu reino. São Luís (+1270, Rei da França), São Ladislau (+1095, Rei da Hungria), Santo Eduardo (+1066, Rei da Inglaterra) e todos os santos reis promoveram o mais que puderam a religião católica. Esforçaram-se por fazê-la a religião do Estado quando ainda não fosse.

Também poderíamos comentar a dessacralização do culto, as cerimônias de arrependimento pelas obras da Santa Inquisição, o novo Direito Canônico de 1983 que permite dar a comunhão aos hereges, o apoio incondicional a teólogos modernistas como Lubac ou Theillard de Chardin… O pontificado do recém-beato apresenta numerosas dificuldades se o comparamos com os exemplos e ensinamentos dos santos e papas anteriores.

Conclusão:
O Evangelho de Jesus ou o “evangelho distinto” do ecumenismo
Está claro que a beatificação de João Paulo II apresenta um grave problema de consciência para qualquer católico. Estamos diante de um dilema. A quem devemos imitar? O recém-beatificado, ou aos outros santos? A resposta nos dará São Paulo (Gl 1,8): “Ainda que nós ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho distinto do que vos anunciamos, seja anátema”. Ora, chegados ao final desse artigo, podemos dizer que na época atual esse “evangelho distinto”, de origem maçônica e liberal, tem nome e sobrenome: chama-se ecumenismo.

Em nome do ecumenismo João Paulo II silenciou o Evangelho de Jesus Cristo, calou que “Cristo é a própria Verdade” (1João 5,5) e que “nenhum outro nome nos foi dado sob o céu, entre os homens, pelo qual possamos ser salvos” (Atos 4,11-12).

Nós católicos não podemos aceitar essa nova doutrina, segundo a qual a mediação de Jesus, “Caminho, Verdade e Vida” (João 14,6), não é necessária para a salvação. Quem nos pregar esse “evangelho distinto”, ainda que seja “um anjo do céu” ou a maior autoridade na Igreja, não pode receber nosso assentimento. Por esse motivo não nos alegramos pela beatificação de João Paulo II nem podemos considerá-lo um modelo de vida cristã. Preferimos seguir o Evangelho de Jesus Cristo e aos santos que o pregaram, recordando as palavras de São Paulo: “nunca quis saber de coisa alguma senão de Jesus Cristo, e este crucificado” (1Cor 2,2); “Ele é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1João 5,21).
Padre Jean-Michel Gomis, F.S.S.P.X
NOTAS:
(1) Discurso na cerimônia de boas vindas no aeroporto «Fornebu» de Oslo, Noruega, de 1º de junho de 1989.
(2) Unitatis Redintegratio, nº3 d), retomado por João Paulo II na Exortação Catechesi tradendae de 16 de outubro de 1979, nº 32.
(3) “L’Osservatore Romano” de 6 de fevereiro de 1993, citado pela Revista Sí Sí No No de julho-outubro de 2007, p. 41.
(4) Declaração da Comissão mista para o diálogo entre a Igreja Católica e a igreja ortodoxa, 23 de junho de 1993, nº 2 e 22.
(5) “L’Osservatore Romano” de 4 de fevereiro de 2000.
(6) Walter Kasper, L’engagement oecuménique de l’Eglise Catholique, conferência de 23 de março de 2002 à Assembleia Geral da “Fédération protestante de France”, em Oecuménisme informations nº 325, de maio de 2002 e nº 326 de junho de 2002.
(7) Encíclica “Quanto confiamur moerore” de 10 de agosto de 1863.
(8) Documentation catholique de 21 de dezembro de 1980.
(9) Documentation catholique de 4 de dezembro de 1983.
(10) Bula “Exsurge Domine” de 15 de junho de 1520. 
(11) Santo Afonso, A verdade da fé, cap. 3.
(12) Pelo menos com o Patriarca Dimítrios I em 7 de dezembro de 1987, com o Patriarca Bartolomeu I em junho de 1995, e com o Patriarca Teoctiste em 13 de outubro de 2002.
(13) Carta de 2 de setembro de 1054.
(14) Zênite (versão francesa) de 28 de abril de 2011.
(15) Precisamente na Mesquita dos Omíadas, em Damasco. É considerado o quarto lugar mais sagrado do Islã.
(16) Citado por “Pierre, m’aimes-tu?”, Daniel Le Roux, Edições Fideliter (1988), pág. 120.
(17) Santo Afonso, “A verdade da fé”, Cap. 1º.
(18) Cfr. “Nostra Aetate”.
(19) “Cruzando os umbrais da esperança” (1994).
(20) Discurso em Mogúncia de 17 de novembro de 1980.
(21) “L’Osservatore Romano” de 14-15 de abril de 1986, citado por “Si Si No No”, pág. 34.
(22) Cfr. O livro do Gênesis.
(23) Santo Tomás, “Comentário sobre o Salmo 39”, começo.
(24) “Suma teológica”, 1a 2ae, c.102, a.4.
(25) “L’Osservatore Romano”, 11 de agosto de 1985, citado por “Si Si No No”, págs. 33-34.
(26) Cfr. “Pedro, ¿me amas?”, Editorial Fundação São Pio X (1989), pág. 74.
(27) “L’Osservatore Romano”, 6 de fevereiro de 1993, citado por “Si Si No No”, pág. 41.
(28) “Corriere della Sera” de 17 de janeiro de 1993, citado por “Si Si No No”, págs. 41-42.
(29) Cfr. “Pedro, ¿me amas?”, Editorial Fundação São Pio X (1989), pág. 69.
(30) “L’Osservatore Romano” de 17 de setembro de 1986, citado por “Si Si No No”, pág. 35.
(31) “Ut unum sint!”, 25 de maio de 1995, §76.
(32) 6 de outubro de 1986, citado por “Si Si No No”, pág. 36.
(33) “Hiram”, revista do Grande Oriente de Italia, abril de 1987, citado por “Si Si No No”, págs. 36-37.
(34) Encíclica “Mortalium animos”, de 6 de janeiro de 1928.
(35) Citado pela Revista “Sí Sí No No” de julho-outubro de 2007, págs. 32-33.
(36) Cfr. “Pedro, ¿me amas?”, Editorial Fundação São Pio X (1989), págs. 86-92.
(37) Encíclica “Quas primas” de 11 de dezembro de 1925.
 Fonte:     http://www.fsspx.com.br